quinta-feira, 9 de junho de 2016

Historiadores pela Democracia │ Volta dilma │ Fora Temer golpista

segunda-feira, 18 de abril de 2016

50 ANOS

Há exatos cinqüenta anos, também numa segunda-feira, em 18 de abril do ano de 1966 eu chegava a este mundo, nesta Terra, neste planeta, neste Tempo.

Nasci na efervescência dos anos 60 no Brasil, em meio a ditadura militar pós golpe de 64, num ano em que foi instituído, pelo Ato Institucional nº 3, as eleições indiretas para governador, vice-governador e a nomeação de prefeitos. Em 12 Estados, a ditadura sai vitoriosa. Em Minas Gerais, Estado em que resido, Israel Pinheiro tomava posse como governador e entrou para a história como pioneiro da indústria siderúrgica nacional. A UNE faz seu segundo Congresso na ilegalidade e na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, a PM invade a faculdade de Medicina e espanca os estudantes. Sai a condenação de 14 anos de prisão para Luis Carlos Prestes, líder do Partido Comunista Brasileiro. Artur da Costa e Silva, candidato da Aliança Renovadora Nacional (ARENA) é eleito Presidente do Brasil, pelo Congresso Nacional, em eleição indireta, após ter sofrido um atentado a bomba em Recife, em que três morreram. São criados o INPS, o FGTS, a EMBRATUR, o IOF, entre outros e em dezembro, o Congresso, após a cassação de vários deputados e o recesso de um mês, é compelido a votar a “Constituição de Castelo”, ainda com Castelo Branco na presidência. Mas a oposição lança no Rio de Janeiro a Frente Ampla, antiditadura, unindo Lacerda, Juscelino e João Goulart e posteriormente, JK e Lacerda, lançam em Lisboa o Manifesto Oposicionista.
 
Um ano já bem agitado no Brasil pela pressão da ditadura, e toda a movimentação da oposição, que resistia e já sofria suas “baixas”, com corpos boiando nos rios, como o caso do corpo do sargento Manoel Raimundo Soares, preso pela ditadura no Rio Grande do Sul e que apareceu boiando com sinais de tortura no Rio Jacuí. Um mês depois o Marechal Amaury Kruel deixa o 2º Exército com manifesto de crítica ao regime militar. E dois anos depois, em 1968, chegamos ao fatídico Ato Institucional nº 5 (AI 5), em que os militares decretaram o recesso por tempo indeterminado do Congresso Nacional e assumem de vez todo o rigor, repressão e truculência de um regime militar ditatorial. E a palavra de ordem que se institucionaliza é o “CALE-SE”.

Esse foi o cenário da minha chegada ao Brasil, nascendo no Rio de Janeiro, pra morar na Rua Campinas, no Bairro do Grajaú, tendo como meus fiéis e dignos tutores, meu pai Jorge e minha mãe Maria José. Tive a minha formação básica na escola em meio as campanhas militares da década de 70, através da mídia principalmente, em que cantávamos: “Crianças somos do Brasil, vivemos sob um céu de anil, pinguinhos de gente valente (...) do Brasil somos as crianças, do Brasil somos a esperança (...), no futuro por sua grandeza, viveremos com riqueza”. Me lembra Affonso Romano de Sant’Anna (1980) no seu poema/ícone Que País é este?: “(...) Usei caderno ‘Avante’ – e desfilei de tênis para o ditador. Vinha de um ‘berço esplêndido’ para um ‘futuro radioso’ e éramos maiores em tudo – discursando rios e pretensão”.


Mas nesses cinquenta anos de história, fui agraciada com muitos encontros, com pessoas, idéias... Tive o privilégio de conviver com quem passou pelos porões da ditadura, com quem trazia consigo as marcas e a chama acesa da resistência, da luta pela liberdade, da livre expressão, da conquista pelo exercício político democrático, para um Estado pleno de Direitos, mesmo que em muitos momentos eu fosse meio que a mascote da turma. Mas pude viver, conviver e transitar em meio a esses movimentos e todas as experiências que a vida me proporcionou, tudo o que a Escola me legou, me oportunizaram a formação de um consciência crítica, humanitária e ética – experiência que acredito ter compartilhado com muitos de minha geração.

Hoje, 18 de abril de 2016, acordo com meus 50 anos – meio século de vida – experimentando algumas das angústias que no ano em que nasci, muitas pessoas experimentaram. Incertezas em relação ao futuro de nossa Nação, uma eleição indireta para presidente camuflada de defesa constitucional e a ditadura militar sendo calorosamente saudada como exemplo de conduta moral, ética, em defesa dos “bons costumes”, da família, tradição e pátria (TFP). Na sessão plenária de ontem, no Congresso Nacional, vi até mesmo deputados falando em nome dos ideais da Revolução Francesa, falaram em nome de tantos, de tanta coisa, que acho que não se lembraram de falar em nome de si mesmo. Percebi mais uma vez que nossos representantes no legislativo, em sua grande maioria, não se comprometem, se isentam de si se auto acobertando em meio a uma falácia sem fim. Se vivemos 50 anos pra chegarmos a esse momento, me parece que o caminho ainda será longo até o exercício pleno de uma democracia limpa, transparente, em que o interesse seja comum, ou seja, verdadeiramente o povo brasileiro, pois o que vivemos, são disputas pessoais, interesses pessoais, vaidades, disputas de poder, ganância financeira e muito despreparo intelectual, emocional e espiritual.
 
Mas gostei de conhecer um pouco mais dessas pessoas e sou grata por essa vivência, por “viver” essa história, que pra mim, se caracteriza por uma transição. Estamos juntos nesse trânsito, assim como está todo o nosso planeta. O que vai advir disso, só o Tempo nos dirá. Se a mim foi me reservado esse testemunho, agradeço e como boa aprendiz que sempre tentei ser, me coloco aberta a aprendizagem e a semeadura das boas sementes que eu for digna de cultivar.

domingo, 27 de março de 2016

ARREBATAMENTOS E ATITUDES

Somos facilmente levados por uma onda, tanto uma onda real no mar, nos rios, quanto numa onda virtual. É de se imaginar que a onda, para nos arrebatar, precisasse ser uma grande onda, mas as vezes o que nos leva é uma marola, ou seja, talvez não estejamos nos sustentando o suficiente para não nos fazermos levar, ou ainda, nem boiar conseguimos e acabamos por nos afundar num mar de crenças, num senso comum que pode não nos representar, pode não corresponder com a pessoa que realmente somos, com nossa essência, que em meio a tantas marés, estamos até desconhecendo.

Esse arrebatamento tem nos levado a lados opostos e extremos, polarizado, em que quem está de um lado é oponente de quem está do outro. As pessoas, naturalmente tem se digladiado, não no nível da discussão de idéias, de conceitos, concepções, mas em nível pessoal, como se a verdade que cada um assumiu como sua – o que não quer dizer necessariamente que seja – é a única e absoluta verdade a se considerar.

Em meio a este emaranhado de ditos, falácias, palavras de ordem podemos dizer que nossa maior crise é a “crise da verdade”. Ou talvez o questionamento que tenhamos que nos fazer seja: “O que é verdade pra nós?”; ou “Qual o nosso conceito de verdade?”; ou ainda: “A minha verdade é verdade para o outro, ou vice-versa?”. Esta reflexão se torna pertinente pra nós porque ouvimos muita coisa, é intenso o uso dos meios de comunicação de massa, as redes sociais, são muitas informações que nos leva a pensar que é muito fácil “falar” e são tantas vozes que o que está ficando cada vez mais difícil pra nós é o “escutar”. Escutar principalmente no sentido “do que escutamos”; “quem escutamos”; “quando escutamos”, entre outras interrogações nesse mar de falas, de palavras e, como estamos chegando no nosso limite do “escutar”, estamos precisando de filtros, precisamos educar a nossa capacidade de selecionar, de classificar, é quase que colocar em prática os conceitos Piagetianos básicos do lógico-matemático e como na pré-escola, exercitar a seriação, a classificação, a conservação, entre outros.

Mas não deveria ser simples pensar na verdade, já que verdade era pra ser verdade e pronto?! Mas aí temos nos deparado com a tal da relatividade e, junto com ela, a tal da conveniência. Mas outros poderiam dizer que se a verdade vem junto com a conveniência ela não deveria ser considerada como verdade, mas... como discriminar essa conveniência, como “ler” nas entrelinhas? Qual filtro vamos usar para fazermos essa classificação? Então teríamos nós tipos de escutas diferenciados para assim entendermos os diversos tipos de verdade? Se as pessoas falam por conveniência, usando da prerrogativa do relativismo, então nossa escuta não seria também uma escuta de conveniência?

Verdade, falas, conveniências, escutas e... a maré vai subindo e nós vamos perdendo nossa estabilidade, os pés vão saindo do chão, a correnteza vai nos empurrando ou nos puxando e, num lapso de tempo, nos vemos como que afogando, sufocando, vamos ficando sem oxigênio e a mente fica confusa, não conseguimos pensar e acabamos por nos deixar levar... até que um “salvador” nos resgate.

É bom então que observemos quantas boias estão disponíveis e quem são os que estão a segurar as boias, pois dependendo do que estiver posto a nossa volta, é melhor correr atrás de bons filtros de escuta e voltar a aprender e colocar em prática a relação dos conceitos lógico-matemáticos em nossas vidas, junto com as relações humanas que prescindem de direitos fundamentais para o exercício da cidadania se fazer em toda a sua concretude, numa sociedade plena de direitos, equitativa e igualitária.


[Imagens: Google Imagens]

quarta-feira, 9 de março de 2016

O DIA SEGUINTE AO "DIA INTERNACIONAL DA MULHER"

E passamos o dia 8 de março - "Dia Internacional da Mulher", com muitas mensagens, piadas, reportagens, algumas manifestações, enfim, movimentação. O dia se foi e a partir de hoje, como será? O que muda, ou melhor, alguma coisa muda? Sabemos da importância de datas representativas, que dão visibilidade a questões fundamentais de serem lembradas na nossa sociedade, que destacam pessoas com trajetórias de vida exemplares. Além da vitrine, o sentimento de valorização é outro ponto estratégico de se eleger no calendário dias como este. E se considerarmos o que as pesquisas e estatísticas sobre a situação da mulher na atualidade nos dizem, é significativa sim esta lembrança e os espaços de discussão que são criados a partir da data.

Mas junto a tudo isso, outro sentimento me incomoda, a sensação de diluição de todo essa movimentação; a possibilidade de ficar no tempo, de se transformar em simples lembrança as mensagens, os cumprimentos, as brincadeiras, as manifestações e tudo mais. E o que temos de concretude deste momento? Se é que é pra ter algo concreto, pois fico com a sensação de que vamos nos rendendo a essa movimentação fácil de se propagar pelas redes sociais e numa fluidez superficial, a essência se esvai...

Percebemos outros movimentos como promoções de Semana da Mulher, com programações de moda, palestras educativas, na saúde prevenção, lazer, entre outros. Momentos de valia na abertura de espaços mais representativos da identidade "mulher" na sociedade.

Mas e a partir de hoje, e na próxima semana? Quantos de nós temos a real dimensão do que representa o universo "ser mulher"? Podemos nos ater em muitas informações mundo afora se considerarmos as diferentes culturas e a história das diversas sociedades, mas se ficarmos com a realidade do Brasil, já temos muito a refletir. Podemos escolher por exemplo, o panorama da violência contra a mulher no Brasil. Informações como estas, leva-nos a olhar com outros olhos para as flores enviadas neste dia 8, em tantos cartões e mensagens. Não que elas não sejam bem vindas, pois diz-se popularmente: "Qual mulher não gosta de ganhar flores?" - as flores como o ícone da conquista masculina - um dos cartões que circulou ontem trazia a imagem do ator Richard Gere segurando uma rosa na iconográfica cena do filme Uma Linda Mulher - versão moderna da gata borralheira, no caso, da prostituta que consegue encontrar seu príncipe encantado, ou seja, 'salva' pelo homem que detém o poder econômico, que escolhe a parceira ideal, que de certa forma manda na própria escolha da mulher.

Olhando mais especificamente pra realidade brasileira, hoje o mapa da violência contra a mulher aponta um Brasil¹ em que 38,72% das mulheres brasileiras em situação de violência, sofrem diariamente com essa violência, sendo que 85,85% é violência domestica, segundo os registros dos dez primeiros meses de 2015 na Central de Atendimento a Mulher - "Ligue 180". Nas denúncias o maior percentual (49,82%) é de violência física, junto a 30,40% de violência psicológica que ainda divide o ranking com violência moral, patrimonial, sexual e cárcere privado. Nos dados de 2013, mais da metade (50,3%) dos 4.762 homicídios de mulheres, foram praticados por familiares, na sua maioria parceiros, ex parceiros - a cada sete feminicídio, quatro foi praticado por alguém que teve um vínculo afetivo com a vítima. É quase um castigo por amar. Fica forte em meio a esses números a representação da mulher como objeto, de desejo, manipulação, dominação e descarte do homem. Seria a manifestação da força viril como poder masculino ou o medo do homem em assumir uma pretensa fragilidade perante sua "opositora" de gênero, seria uma armadilha do ego, uma camuflagem na insistente representação do homem como o soldado do exército em defesa da masculinidade?

Pensando nessa representação masculina fica no ar um questionamento em relação a formação deste homem, as referências e influencias que o constituiu, já que a mulher tem uma representação preponderante nesta formação, uma vez que, enquanto mãe tem nessa trajetória a responsabilidade de educar este homem para o desempenho de seus papéis sociais. Por que então a mulher educaria o homem para fazer dele seu opressor, por que alimentaria esta distorcida e equivocada soberania masculina? Se os homens são responsáveis por não formar adequadamente seus pares, por alimentarem um imaginário machista e dominador, a mulher também tem uma parcela considerável na construção desta identidade. Assim, parece-nos que educar a mulher é quase que mais necessário e urgente do que qualquer outro movimento. Mesmo pensando nessa educação do homem, ainda está muito presente em nossa sociedade o legado da formação das pessoas na mão das mulheres e é a própria sociedade que se incumbe de também culpar e 'atirar as pedras' na mulher pela má educação. Não é comum ouvirmos entre os xingamentos a expressão "filho do pai". Os apontados como errados são os "filhos da mãe", ou ainda são "os filhos de uma cadela", ou "filhos de uma égua", ou "filhos da puta". Ouço quase que diariamente na escola, quando as crianças brigam, elas gritarem palavras ofensivas para a mãe do outro. 


Que fardo!!! Mas talvez fosse este um fardo imputado à mulher pela própria mulher, o que ela acostumou em colocar em suas costas, como que a reprodução automática da formação de um homem violento, que entende que se fazer valente perante as mulheres é sinal de sua macheza e que mulher, até mesmo a mãe do outro pode ser achincalhada. O que pensar então da formação desta mulher, que constrói a identidade de seu opressor e reproduz a subordinação da mulher, fazendo das 'meninas' figuras frágeis que  facilmente cedem a opressão masculina como se mendigassem pelo seu bem querer?

Temos que pensar a educação da mulher e despertá-la para seu papel na mudança social que queremos em relação a formação de gêneros. Temos que empoderar essa mulher para que ela assuma seu poder transformador. Esse é um movimento urgente mas para o fazermos temos que partir do reconhecimento da nossa identidade, de reconhecer nossa própria formação enquanto mulher e do que já deixamos de legado para os "homens de nossa vida". Como nos formamos? Quais são nossas concepções e como educamos nossos filhos? Questões fundamentais, imprescindíveis e urgentes. A roda precisa mudar seu curso... Que venha essa consciência, que venha esse reconhecimento e que venha o movimento, a ação para a formação
humana se fazer, pela essência humana, sem qualquer apelo ou muleta de gênero que nos leve a ilusão de que somos nós que moldamos o gênero do outro. Não somos de barro e sobre a carne e o osso reina uma mente absolutamente emocional e humana, que transcende o sexo.

¹ Fonte: http://www.compromissoeatitude.org.br/dados-nacionais-sobre-violencia-contra-a-mulher/ 
Imagens: Google Imagens

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

FINAL DE FESTA... FINAL DE CARNAVAL (SERÁ?)

E assim vamos chegando ao fim de mais um Carnaval. Será???

Pelo menos é o que está previsto no nosso calendário oficial e mesmo que existam resistências, oficialmente, o Carnaval se encerra nesta noite. Amanhecemos com a "Quarta-feira de Cinzas", data significativa do calendário cristão. O que nos leva a lembrar que nos despedimos da considerada "festa pagã" para nos prepararmos para a importante "festa cristã" - a Páscoa. O que não seria esta preparação se não um convite a introspecção, a penitências, privações, reflexões típicas do tempo da Quaresma cristã. Tudo tão providencial, ou seja, precisamos de uns quarenta dias pra nos purificarmos da alegria transbordante e até das inconsequências da festa pagã - o Carnaval, para estarmos aptos para o Tempo Pascal.

O calendário vai nos guiando... nos permite o estravazar entre as danças, as músicas, o samba e outros ritmos, as gargalhadas, as pessoas e depois nos coloca em silêncio, em profundo silêncio, para que o equilíbrio seja retomado, supondo assim, que depois da Páscoa, estejamos sãos, em mente e corpo. Será??

Não somos tão regulares assim, por mais que os padrões, formalismos e convenções religiosas e sociais nos tentam fazer ser. Vivemos em meio a sentidos relativizados pelas realidades que vivenciamos entre os tempos e acontecimentos aos quais somos platéia e ao mesmo tempo atores. O que dizer então deste momento? 

Terminamos um ano em meio a grandes conturbações e iniciamos com muitas incertezas, mas a capacidade do nosso povo de não perder o bom humor, ou seja, de "não perder a piada" (ou até mesmo a necessidade de sobreviver em meio ao caos) parece nos conduzir a buscas incessantes por "rotas de fuga". Assim, mesmo com dívidas, desemprego, incertezas, falta de médico nas emergências, falta de vagas nas creches, hospitais, violência nas ruas, nos lares, intolerância racial, religiosa, homofobia, corrupção, escândalos e... caímos no Carnaval!!! Nos rendemos ao Reinado do Momo! E muitas pessoas fazem destes dias sonhos em folia, é a "Ode à Ausência". É como se o país ficasse em suspensão nesses dias e às pessoas fosse permitido se ausentarem de si. Se ausentarem de seus problemas, suas dívidas, suas dores, tristezas, angustias, preocupações, se ausentarem dos problemas do país e até do mundo.

Mas como diz o dito popular: "tudo que é bom dura pouco", podemos emendar, lembrando Noel Rosa na composição Baile da Flor-de-lis, "acabou-se o que era doce, quem comeu arregalou-se (...)". E assim chegamos a quarta-feira, também reconhecida como o dia da ressaca de Carnaval. Há os que ainda com ironia, vão dizer que é quarta-feira de cinzas porque só restaram as cinzas depois de tanta folia esfuziante! E porque não aproveitar de outro compositor/poeta e lembrar Vinicius de Moraes quando falou pra nós de "Felicidade" dizendo "Tristeza não tem fim, felicidade sim (...) A gente trabalha o ano inteiro, por um momento de sonho, pra fazer a fantasia de rei ou de pirata ou jardineira, pra tudo se acabar na quarta-feira (...)". Será??

O que realmente se acaba na quarta-feira? O sonho, a ilusão ou a alegria? Se dissermos que a alegria caba, estamos assumindo uma depressão generalizada, numa sociedade que esquizofrenicamente sofreria de uma bipolaridade, passando de um extremo ao outro nos estágios do humor. Se dissermos que acaba o sonho, nos despediríamos de nossa capacidade de sonhar e de querer dias melhores. Se acaba a ilusão despertamos da ausência de si. Este é um despertar necessário, mas quantos assim o querem realmente? Estar ausente é um grande apelo de nossas sociedade atual, que busca subterfúgios diariamente, que faz aumentar o consumo de álcool, na cervejinha de praxe, na passadinha sagrada no botequim pra pinga com os amigos, no aumento das cracolândias, na engorda dos lucros farmacêuticos com o consumo de psicotrópicos, os "tarjas pretas", já tão banalizados e quase que incorporados na rotina da população.

Não seria então a quarta-feira no lugar de um fim, um começo, o despertar para o ano que realmente precisa começar, numa roda que precisa rodar, que não pode parar? Seria sim as portas se abrindo para o necessário despertar de nossa consciência, pra não perdermos o "trem da história", ou ainda, pra não corrermos o risco da "banda passar" e não chegarmos em tempo na praça, no coreto, na janela, na rua...

O ano precisa começar e nós precisamos caminhar adiante, mesmo que estejamos um tanto quando perdidos em meio as intempéries do caminho. Não precisamos abrir mão da alegria em toda sua intensidade, sem camuflagens ou muletas para parecer alegres. Se como dizem, cada momento é único, lembrando mais uma vez o "Poetinha":  "que seja infinito enquanto dure"...

E o que sobrou do Carnaval? Muito lixo pelas ruas é fato!

Talvez dores de cabeça para uns tantos (ressaca física e/ou moral), cansaço para outros, satisfação, desejo de quero mais, arrependimento, tristeza pra alguns, muitas histórias pra contar, energia pra outros, aborrecimentos, muitas e muitas emoções!!...

Mas com certeza, tem muitos já desejando que chegue logo a Semana Santa, pra não perder de vista as "rotas de fuga", e assim ganhar mais uns dias de cúmplice ausência...

Imagens: Google Imagens 

domingo, 7 de fevereiro de 2016

CARNAVAL - QUANDO A TRADIÇÃO FALA MAIS ALTO E A ANCESTRALIDADE SE DESTACA

Inaugurando as postagens do Blog no ano de 2016, destacamos nas festividades do Carnaval, a abertura em Recife, onde o religioso e o profano se fundem e prevalece tradicionalmente a ancestralidade, as raízes da cultura afro-brasileira. A sugestão fica por conta da reportagem a seguir:



Fonte: www.carnaval.uol.com.br 








quinta-feira, 10 de setembro de 2015

7 de SETEMBRO – INDEPENDÊNCIA DO BRASIL

Na última segunda-feira (7 de setembro), como de praxe, fui à rua principal de Leopoldina, cidade em que resido, participar do desfile em homenagem ao “Dia da Independência”. Como em todos os anos, as escolas desfilam pela Rua Barão de Cotegipe, algumas apresentam temas da atualidade, outras remetem a fatos da nossa história, como também, várias exibem suas fanfarras – alegria de muitos alunos. Eu acompanhei a escola pública onde atuo como Supervisora e mais uma vez fiquei a me questionar qual seria o real significado deste evento pra todas aquelas pessoas ali presentes, sejam as que desfilavam ou as que assistiam. Qual o sentimento que paira sobre todos nós? Como nos vemos e nos percebemos num ato de civismo, no exercício de “patriota”? Uma certeza eu tive: mudamos muito! Vou usar até de um clichê, “na minha época era bem diferente!”. Mudanças são necessárias, mas o que nos diz a nossa mudança?

Fiquei a lembrar de quando eu como aluna passei por essa mesma rua, com o uniforme completo, marchando – sim marchávamos, tínhamos até mesmo que ensaiar a marcha por vários dias que antecediam o desfile, era como um rito, ainda em meio a regras rígidas, mas num país que queria muito escrever uma nova história. Lembrei-me que por uma única vez conseguimos desfilar com a camisa do nosso recém empossado Grêmio Estudantil – parecia até um ato de subversão, era o nosso ato político, buscando ser conscientes e atuantes no país em que crescíamos e que junto com nós se desenvolvia. Inclusive esta era uma citação recorrente: “O Brasil é um país em desenvolvimento”.

Sonhei muito com este país desenvolvido. Sonhei com a inclusão dos considerados excluídos socialmente; sonhei com a democracia política sendo exercida em plenitude; sonhei com a cultura, a arte transbordando em nossas vidas, em todos os cantos e lugares; sonhei com a poesia cantada em versos e prosas nas praças, quintais, varandas, jardins...; sonhei com a música fazendo parte do currículo escolar; sonhei com a diversidade nas escolas, nas ruas, sem distinção de raça, cor, gênero, crença religiosa e por fim sonhei com um país em que todos sabiam ler, escrever e exerciam sua cidadania e autonomia, letrados para a vida.

Vários dos meus sonhos eu precisei reeditar ao longo da minha caminhada. Pra uns busquei justificativa; pra outros fui entregando ao tempo; há os que eu procurei me aprofundar, tentando compreender os fios que tecem e mantém a nossa “teia” social; frustrei-me e até me indignei; em alguns momentos me esgotei; renovei forças, aprendendo novos caminhos e formas de caminhar sem perder o foco donde chegar.

Mas nenhum destes sonhos gritou tão forte em meus ouvidos como o que vivi quando voltava pra casa ao final do Desfile Cívico pelo Dia da Independência, nessa última segunda-feira, 7 de setembro de 2015. Passando no Supermercado, fui abordada por uma mulher (negra, aparentando de quarenta a cinqüenta anos no máximo), me pedindo para achar entre as prateleiras um xampu anti-caspa. Num primeiro momento pensei que ela queria uma opinião sobre qual seria a melhor marca, mas logo depois ela completou o pedido dizendo que NÃO SABIA LER e precisava muito do xampu. Mostrei a mercadoria solicitada, ela me agradeceu com um sorriso e um certo acanhamento, que não me pareceu ser por não saber ler, pois ela me disse isso com tanta naturalidade que beirava o conformismo. Parecia incomodada pelo problema que estava passando com os cabelos, mas a sua “independência” não estava pra ela limitada ao domínio da leitura, mas “dependia” de sua disposição de pedir e poder contar com o ledor, caso este também assim estivesse disposto.

Naquele dia comemorávamos o Dia da Independência. Será que podemos realmente tocar arautos e gritar aos quatro cantos que “somos uma Nação independente”? Onde está a nossa independência? Ela está num ato simbólico, num ato político, numa convenção? – lembrando que em termos econômicos a Declaração da Independência nos anos de 1822 nos custou cara, já que o Brasil contraiu uma dívida com a Inglaterra, pra pagar os dois milhões de libras esterlinas exigidas por Portugal pra “nos libertar”. Cento e noventa e três anos deste ato e eu ouço num só dia dois gritos: um reafirmando e reverenciando a Independência do Brasil e outro do povo brasileiro, que parece nos dizer: “Ei, não sou independente, não tenho minha autonomia, estou excluído!”.

Acredito que uma Nação que ainda segrega socialmente uma grande parcela de sua população, por muitos não serem alfabetizados e ainda não letrados, precisa mudar o seu “grito” e trazer pra concretude o que já há muito tempo deveria deixar de ser uma limitada e mera falácia ou um sonho do qual nunca acordamos. Vale lembrar aqui, a insistente afirmação da educadora Magda Soares: “ensinar por meio da língua e, principalmente, ensinar a língua são tarefas não só técnicas, mas também políticas” na “luta contra as discriminações e as desigualdades sociais” (SOARES, 2000, p.79)

Desperta “Gigante pela própria natureza, belo, forte e impávido colosso! 
Acorda do sonho eterno em berço esplêndido!” 

segunda-feira, 16 de março de 2015

POR QUE TANTO ÓDIO?

Encerrei este dia 15 de março de 2015 com um desconforto em relação ao que assisti através dos meios de comunicação e uma indagação: POR QUE TANTO ÓDIO?

Manifestações populares deveriam ser encaradas com naturalidade em um país democrático, como o natural exercício da nossa cidadania, confrontando ideias, opiniões e concepções políticas. No mundo das ideias as pessoas não deveriam ter posturas tão agressivas como muitas das que ocorreram nas ruas. POR QUE TANTO ÓDIO?

Vi pessoas levantando faixas com símbolos nazistas; vi pessoas empunhando cartazes desejando a morte de outras; vi bonecos pendurados pelo pescoço em viadutos, representando a presidente Dilma e o ex-presidente Lula - me fez lembrar as imagens da tradicional "malhação do judas", entre os eventos da Semana Santa; também vi inúmeras faixas e cartazes clamando por "intervenção militar", inclusive entre os jovens, parecendo um devaneio ensandecido, um completo reverso do movimento natural de evolução e amadurecimento dos regimes democráticos; vi mulheres segurando frases do tipo "Feminicídio sim" - e não entendi nada. POR QUE TANTO ÓDIO?

Sejam quais forem as forças e influências que arregimentaram os protestos deste dia 15 de março, mesmo que entre muitas pessoas levadas por essa "onda", a intenção seja a de querer um país melhor, sem corrupção, a de provocar a reflexão e as mudanças necessárias cobrando dos poderes aquilo que os compete, pairou sobre os manifestantes uma nuvem de ódio, fomentada pelos que destilaram sua raiva projetando-a principalmente na figura da presidente, quase que como uma rusga pessoal.

Em meio aos nossos conflitos sociais, em que tem prevalecido a intolerância, seja por diferença de gênero, cor, sexualidade, religião, entre outros, talvez não seja tão difícil entender o porque da "mulher" presidente do país ser o grande alvo. Por pouco os manifestantes não cantaram um dos clássicos do grande Chico Buarque: "(...) Joga a pedra na Geni, joga bosta na Geni, ela é feita pra apanhar, ela é boa de cuspi (...) maldita Geni!". Mas não faltou o popular e chulo "Vai tomar no (c)!". Em alguns momentos eu não sabia se assistia a uma manifestação popular ou a um grande escárnio público.

O que resultou esta raiva contida? O que mais incomoda? Incomoda estar na presidência do país uma mulher? Incomoda esta mulher não estar dentro dos padrões de beleza institucionalizados para a "mulher brasileira"? Incomoda ter que tolerar pessoas com renda mais baixa frequentando lugares outrora limitado a alguns privilegiados? Incomoda a luta pelas igualdades sociais?  Incomoda que esta presidente além de ser mulher tenha um passado de luta e perseguição política no período da ditadura militar e ter sido colocada no rol dos comunistas que "mancharam" o país de vermelho? Ou incomoda a corrupção e os vultuosos desvios de dinheiro público promovendo o enriquecimento ilícito dos operadores dos "grandes esquemas" e dos beneficiários deles? Este último incomoda a todos nós. Mas diz respeito a vários outros personagens deste trágico e triste enredo. Mas parece ser mais fácil escolher um "judas", bom neste caso em particular, "uma judas".

Em meio a essa explosão de sentimentos, colocando muitos a "flor da pele", é comum que a cegueira e a surdez se instalem de forma generalizada e o discernimento se perca. Assim a "onda" vem arrastando muitos, na avalanche de interesses ocultos que estrategicamente vão puxando as cordas das marionetes, no jogo dos poderes, na roda viva do capitalismo desenfreado, que traz a frente os que já do alto do pedestal - pelo grande poder econômico que possuem - se recusam a descer um pouco que seja, mesmo que fosse só a direção do seu olhar. Como poucas andorinhas "não vão fazer verão", o arrebatamento precisa ser volumoso e pra isso, contam com um grande poder em mãos: as mídias de comunicação, que sempre vão promover o que por si mesmo institucionalizam como verdade.

Como um nostálgico contraste, neste dia 15 de março de 2015, completamos 30 anos do fim da ocupação militar no governo brasileiro. Foi em 15 de março de 1985, que o Sr. José Sarney assumiu a presidência do Brasil, no lugar daquele que havia sido escolhido pelo Colégio Eleitoral, o Sr. Tancredo Neves, mas que por um infortúnio, foi hospitalizado neste mesmo dia.

Trinta anos depois desse significativo episódio para a consolidação do nosso processo democrático, deveríamos comemorar a trajetória política até aqui delineada e construída. Mas me pareceu estarmos mais para a alienação histórica do que para a consciência do nosso percurso enquanto Nação em desenvolvimento. Talvez, ao gritar nas ruas para retrocedermos a ocupação militar, as pessoas estejam a entender que seria este um "caminho mais fácil", já que receber ordens para muitos parece ser mais fácil que pensar, formar suas próprias ideias, tomar decisões, participar de assembleias, conviver coletivamente, discutir, escolher... Mas entre receber ordens e obedecer há uma distância considerável e que só pode ser exercida quando temos liberdade pra isso, mediando pela argumentação. Mas depois que abrirmos mão da nossa democracia e entregarmos aos militares o poder, onde estará a nossa LIBERDADE?

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

CASA GRANDE E SENZALA – FRANÇA, NIGÉRIA, NAZISMO – O QUE TEMOS NÓS COM ISTO?

Nos últimos dias os atentados na França tomaram os noticiários e demais veículos de comunicação. Mas o que tem reverberado em meus pensamentos são as seguintes questões: “Por que parece que nos comovemos muito mais com os atentados na França que mataram 17 pessoas, do que com as 2 mil mortes nos últimos atentados terroristas na Nigéria?”; “Por que a pouca divulgação e mobilização em relação ao que vem acontecendo ostensivamente na Nigéria?”.

A primeira imagem que me saltou na mente como uma possível resposta foi o ícone da “Casa Grande e Senzala”. Longe de achar que não temos que nos consternar com as perdas de vidas na França em atos de violência terrorista e a ameaça a liberdade de expressão, mas o que vem absurdamente acontecendo na Nigéria, que de forma extremada avilta a nossa própria condição de convivência humana, pela quantidade de mortes; pelo tempo em que vem ocorrendo; pela crueldade com que as vidas são ceifadas; pelo completo desrespeito aos Direitos Humanos, deveria ter ocupado os meios considerados “nobres” de comunicação, a chamada “grande mídia”, tanto para nos informar mais sobre as ocorrências quanto para demonstrar a resposta do mundo aos fatos.

O que incomoda é o fato de que as atrocidades que vem acontecendo na Nigéria desde o ano de 2009 – somando um contingente aproximado de 10 mil mortes, além de ações como sequestros de 100 mulheres, uso de crianças para portar bombas em ataques, fechamento de escolas, entre outros – não tenham sido, até o presente momento, objeto de uma mobilização mundial como a ocorrida após um único ataque na França. Pra termos uma idéia da gravidade do que vem ocorrendo na Nigéria, segundo as autoridades, é uma crise humanitária em que mais de três milhões de pessoas são afetadas. “A insurgência no nordeste da Nigéria, travada pelo grupo militante islâmico Boko Haram, é hoje uma das campanhas mais mortíferas na África” (2015, BBC África).

Mas o que está oculto nessa história? Por que foi preciso que algumas personalidades – a exemplo do Arcebispo Ignatius Kaigama dizendo que “a mobilização internacional contra o extremismo não pode ocorrer somente quando há um ataque na Europa” – e alguns grupos se manifestassem, reclamando a pouca atenção à região africana para que algumas notícias e chamadas em jornais, e até mesmo uma reportagem no programa Fantástico (Rede Globo), dissesse algo sobre as ações do Boko Haram na Nigéria? Volto a dizer, só consegui respostas considerando o mito da “Casa Grande e Senzala”. Não vencemos esse mito, que parece ainda estar arraigado em nós. A Europa, a França representa a Casa Grande dos Senhores, dos “patrões”, dos mandatários e a Nigéria não passa da Senzala, da Casa dos Escravos, do negro servil ao homem branco. Nessa lógica – sem lógica alguma em termos de relações humanas e diversidade cultural –, pra que vamos nos preocupar tanto com esses negros? Exemplo disso foi o que ouvi da boca de alguém que se diz “intelectual”: “Morrem muitos na África, mas são muitos e eles são tão ignorantes, matam-se uns aos outros e agora aderiram ao extremismo do Estado Islâmico, sinal de pouca cultura, de pouco entendimento”. Essa expressão “são muitos” quer nos dizer o quê?

Que justifica-se o massacre pela quantidade de pessoas que vivem por lá? Dizer que se matam uns aos outros, quem são os outros, quem somos nós? Não somos todos um único povo, uma única aldeia, ou o discurso da globalização só é preponderante pela conveniência do momento e da situação da vez? Dizer que são ignorantes, facilmente influenciáveis é muito cômodo, pois nada mais é do que renegá-los a uma condição de inferioridade como sempre fizemos. Quem teria que responder pelos poucos investimentos em desenvolvimento nesses países?

A Europa hoje decadente economicamente – e que se fez pela colonização exploratória no passado de outros países, entre eles, países do continente africano –, inclusive dependendo hoje da mão de obra de imigrantes negros, insiste, pela nossa própria condescendência, em ser “superior” – até mesmo na dor. Lembrei-me de alguns colegas moçambicanos da turma do Mestrado que sempre reclamavam da nossa visão estereotipada em relação a eles, como se todos lá vivessem em tribos, pois as perguntas a eles direcionadas eram na maioria das vezes sobre as savanas, pouco era lembrado da vida urbana de Moçambique, comum a todas as cidades grandes com suas intempéries.

Hoje, dia 27 de janeiro, “Dia Internacional da Lembrança do Holocausto”, em que rememoramos o genocídio nazista em massa contra os judeus (e também a outros como: ciganos, poloneses, comunistas, homossexuais, prisioneiros de guerra soviéticos e deficientes físicos e mentais), com uma estimativa de 11 milhões de mortes, é pra nós uma fundamental referência para refletirmos sobre as atuais mortes e guerras por grupos extremistas no mundo. Intolerância, discriminação, preconceito e a utópica possibilidade de uma classificação da humanidade entre “raças” superiores, ou o que agora tem sido tão insistente, uma ideologia política e religiosa superior. A eterna justificativa “dos meios pelos fins” e nestes casos, fins nada nobres e meios ainda mais absurdos. Mas o que se destaca em meio as minhas preocupações é que as ações de Hitler e seus seguidores nazistas foi uma loucura assumida, anunciada e propagada e hoje, ao mesmo tempo em que apontamos os extremistas radicais da atual sociedade, nas diferentes partes do mundo, não estamos fazendo o exercício de buscar em nós os nossos próprios extremismos, nossas próprias ideologias e crenças. Essa revisão tem que acontecer, para o bem de todos nós e pela saúde de nossa sociedade mundial. Mas ela tem que partir da seguinte indagação direcionada a cada um de nós:

“O QUE REALMENTE ME INCOMODA?”
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REFERÊNCIA

CHOTHIA, Farouk. Boko Haram: como os militantes nigerianos ficaram tão poderosos?. BBC África. 2015. Disponível em <http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/01/150126_boko_analise_lk> Acesso jan 2015

IMAGENS (disponíveis na internet, pesquisa por imagem, www.google.com):
- Engenho Noruega - ilustração de Cícero Dias - Casa-Grande & Senzala (FREIRE, Gilberto. 1993)
- Boko Haram demands prisioner swap for kidnapped girls (www.dailymail.co.uk)
- Dia do Holocausto (www.aquieuaprendi.blogspot.com)

sexta-feira, 23 de maio de 2014

RESSACA CULTURAL, MORAL, CIDADÃ...

Posso afirmar que o sentimento que tem me assolado nos últimos dias é de RESSACA. É como se tivesse me embriagado por uma estética disforme, desfigurada, de um cenário trash, no qual eu me sinto uma intrusa ao mesmo tempo em que percebo que sou mais um dos coadjuvantes dessa “cena” chamada de Leopoldina, que como dizia o músico poeta*: “(...) sonora verdade (...) minha cidade”.

Não consigo no momento cantar todos os versos, pois seria por demais contraditório, no presente “ato”, dizer “mineira gostosa”, mas não me furtaria em destacar entre os versos a inspiradora constatação: “alienada em função do futuro (...)”.

Por que não “mineira gostosa”? Porque uma cidade em que lixos espalhados passaram a ser rotina em todos os bairros, ruas, cantos, disputados por cachorros e por jovens em brincadeiras nada agradáveis, não pode ser “gostosa”. Porque uma cidade em que os buracos são constantes nas ruas e nas calçadas, isso quando se tem calçadas, não pode ser “gostosa”. Porque uma cidade em que decepam árvores, arrancam história, desprezam a cultura e o patrimônio, não pode ser “gostosa”.

Fui surpreendida, há dias atrás, com uma cena que tem reverberado em minha memória e as vezes de súbito ela transborda em minha mente. Com isso percebi que precisava compartilhar o ocorrido e minhas indagações. Estava eu passando pela Rua Barão de Cotegipe, neste Município de Leopoldina, num início de noite quando ao parar pra conversar com amigas em frente a Casa/Museu em que viveu o poeta Augusto dos Anjos, percebi uma movimentação de pessoas, que pouco a pouco se dirigiam a árvore que existe em frente a referida casa e depositavam ali, aos seus pés, um saco de lixo. E quando me voltei para a árvore percebi que a base de seu tronco foi tomada por lixo. Foi quando uma das amigas chamou a atenção para observarmos as demais árvores da rua, em frente a outros logradouros e assim constatamos que não haviam sacos de lixo aos pés de outras árvores, ou seja, o local “escolhido” pelas pessoas para depositar o lixo foi exatamente na árvore em frente a única Casa/Museu que temos na cidade, uma das nossas referências patrimoniais, símbolo da cultura leopoldinense, reconhecida em inúmeros lugares, pelo importante acervo histórico e material do poeta paraibano Augusto dos Anjos.

Desde então venho me indagando sobre o significado desse ato. O quê realmente isso nos diz? Seria aquela “Casa” invisível às pessoas? Por que exatamente ali seria o local de colocar o lixo? Qual a representação simbólica daquele lugar, daquele espaço para as pessoas? Ou será que na verdade ela não representa nada para as pessoas, ao ponto de não ser percebida na sua qualidade de ícone da cultura local? Seria ela para as pessoas uma simples casa velha, em que não mora ninguém, por isso seria permitido depositarem ali o lixo? Outra hipótese que pensei é que talvez pela iluminação em frente a casa entenderam ser um bom local para colocar os sacos de lixo para a coleta pelos lixeiros e desavisadamente não teriam percebido que estão “promovendo” a Casa, em que o poeta Augusto dos Anjos passou seus últimos dias, a lixeira da rua. Percebi que tudo isso produziu em mim um misto de indignação, com admiração e até mesmo um silêncio profundo que me congelou e precisei de alguns dias pra conseguir soltar minha voz e falar sobre isso.
 

O que acontece na Leopoldina em que vivemos? O que estamos produzindo? Qual é nossa verdadeira tradição e o que é cultura pra nós? E por fim, por que jogam lixo em frente a Casa/Museu em que viveu o poeta Augusto dos Anjos????






*(Fragmentos dos versos do Músico/Poeta: Serginho do Rock)